15 de julho de 2013

Entrevista com Mauricio Zottarelli

Carlos Wagner Nunes*

Todos nós conhecemos pessoas que, por sua habilidade, inteligência e responsabilidade, tornam-se ícones no mundo. Tive a honra de entrevistar alguém assim. Um ícone das baterias respeitado mundialmente e embaixador brasileiro do instrumento, além de compositor. Radicado em Nova York, Mauricio Zottarelli, que é presença frequente e de bastante evidência nos cenários musicais brasileiros, latinos e de jazz há vários anos.


Zottarelli expressa sua musicalidade de forma indescritível, com incrível domínio sobre o instrumento. Vindo de uma família de músicos, sempre teve a música como parte integral em sua vida. Nascido em Santos (SP), mudou-se com seus pais para Rio Claro (no mesmo estado), onde cresceu em um ambiente extremamente musical. Nos primeiros anos como baterista profissional, participou de várias gravações em estúdios e tocou com diferentes artistas e grupos. 

Em 1999, Mauricio ganhou uma bolsa de estudos para cursar a Berklee College of Music, em Boston, nos EUA, onde estudou simultaneamente Música para Filmes, Performance e Arranjo. Mauricio recebeu o diploma da Beerklee em 2002. Nos anos seguintes, estudou música Indiana com o guitarrista Prasanna e estudou composição com o professor de jazz Charlie Banacos. 

Mauricio mora em Nova Iorque desde 2006. Já participou de mais de 70 álbuns como baterista/percussionista. Como bandleader e compositor/arranjador, é um dos líderes do Dig Trio, que lançou seu primeiro disco em 2003 e recebeu ótimas críticas da imprensa e dos fãs da boa música. Em 2009, lançou seu primeiro disco solo, 7 Vidas (7 Lives), com várias de suas composições, e tem um time de primeira tocando uma mistura única de jazz, fusion e jazz brasileiro.

Pelo CD Mozik, uma parceria com o pianista Gilson Schachnik, lançado em outubro de 2011, tem recebido muitos elogios da imprensa especializada, incluindo publicações importantes como a revista "Downbeat" e o site "All About Jazz". Mozik também foi considerado pelo blog "Jazz Station", do jornalista/produtor/historiador Arnaldo deSouteiro, como o Novo Talento #1 de 2011. Além disso, o blog também colocou o disco entre os 15 melhores CDs de 2011. Mauricio também foi incluído na lista dos 10 melhores bateristas do ano. 

Em 2012, Mauricio ganhou o prestigiado Prêmio da Música Brasileira com Dom Salvador, no seu mais recente disco “The Art of Samba Jazz”. Foi listado também como o 3º melhor baterista do ano de 2012 pelo "Jazz Station blog". Com forte interesse pela educação musical, ministra aulas particulares na região de NYC durante seu tempo livre e tem feito workshops no Brasil e nos EUA. Ele também já deu aulas no conceituado Acampamento Brasileiro na Califórnia (California Brazil Camp) e é colunista da revista "Modern Drummer Brasil". Maurício é endorsee das baquetas Vic Firth, Soultone Cymbals, Mono Cases e FSA Cajons.

Carlos Wagner Nunes - Como foi sua formação como baterista? O que mais valorizou em seus estudos?
Maurício - Comecei a tocar bateria quando tinha 14 anos. A ideia de tocar me acompanha desde pequeno, quando brincava com panelas e colheres da minha mãe, batucando onde quer que conseguisse um som bacana. Meu pai também é músico e, às vezes, eu o acompanhava tocando bongôs. Um dia, pintou uma oportunidade de tocar bateria num festival na escola e não pensei duas vezes. No ensaio, usei um teclado com som de bateria, pois não tinha instrumento. No dia do show, toquei numa bateria emprestada, pela primeira vez, e foi super legal! Decidi levar o vídeo para meu pai assistir e, no dia seguinte, ele me levou a uma loja para comprar uma bateria. Aos 19 anos, decidi fazer aulas e estudar o instrumento mais seriamente. No começo, estudei bastante leitura e percepção e sempre gostei muito de tocar horas com o metrônomo ligado, tocando o que viesse à cabeça. Adoro escolher um groove e tocá-lo, explorando diferentes dinâmicas, orquestrações e andamentos. Alguns anos depois, comecei a estudar o livro “The New Breed”, escrito por Gary Chester, que mudou minha vida. O método de Gary abriu as portas para a possibilidade de estudar múltiplas coisas num mesmo exercício. Seus sistemas envolvem o estudo da leitura, groove, coordenação, respiração e postura no kit, o inner-clock (relógio interno) e mais, tudo acontecendo simultaneamente. Isso foi o máximo para mim. Até hoje este livro é minha principal fonte de inspiração para estudar e desenvolver algo novo. Logo no começo percebi que apesar de adorar tocar e buscar um aperfeiçoamento constante, não conseguia manter uma rotina de estudo individual extremamente rígida, pois o que gosto mesmo é de tocar e interagir com outros músicos. Então, o que mais valorizo é tocar com outras pessoas, o máximo possível. Sempre temos coisas para praticar sozinhos, como técnica e coordenação, mas, na minha concepção, e seguindo meu objetivo pessoal, a melhor maneira de crescer musicalmente é buscar novas experiências em conjunto com outros músicos. De preferência, ao vivo.

Como surgiu a oportunidade de estudar nos EUA?
Em 1998/1999, eu estava estudando com o Alaor Neves em São Paulo, e ele me contou sobre os testes que a Berklee College of Music conduziria em 1999, no Conservatório Souza Lima. Alaor me ajudou na preparação para o teste e, juntamente com minha família, me incentivou bastante para tentar fazer algo único no dia da prova. Decidi compor uma música, sequenciar tudo e levar o CD como play-along no dia da prova. Foi uma tremenda experiência. Os professores da Berklee gostaram muito da minha apresentação e me deram uma bolsa de estudo para o curso completo. Mudei-me para Boston no mês maio de 1999 para fazer o curso de quatro anos. Acabei por me formar em três anos e, desde então, tenho morado nos EUA, em Nova York.

Você poderia traçar um paralelo da sua evolução como músico desde que saiu do Brasil até o momento em que se formou na Berklee?
Tendo crescido no interior de São Paulo. Imagino que certas influências que tive (culturais, musicais e sociais) me levaram a ser do jeito que sou e a tomar decisões. Sempre me dediquei à música e ao estudo, pois sabia que teria de encarar a cidade grande um dia, e queria estar o mais preparado possível. Por causa do meu interesse em jazz, fusion, blues, rock, funk, a decisão de estudar nos EUA fez muito sentido para mim. Mas uma coisa que me pegou de surpresa foi o contato com a música brasileira. Já no primeiro semestre de aulas, percebi uma paixão dos músicos em geral pela MPB e música instrumental brasileira. Eu não tinha muito conhecimento do assunto até então, e isso foi uma tremenda descoberta (e, por que não dizer, um puxão de orelha também). Tudo isso me ajudou a moldar meu estilo de tocar e apreciar música. Comecei a aprender as nossas coisas, a nossa música, e tentava absorver o máximo quando vinha para o Brasil. A Berklee é uma escola que pode ser muito difícil e exigente, pois a grade curricular obriga o músico a estudar a fundo harmonia, percepção e teoria. Além disso, optei por estudar mais a fundo arranjo, composição e trilhas sonoras. Isso abriu minha cabeça para outro mundo da música que eu não conhecia e mudou minha maneira de encarar a bateria. O fato de estar em outro país, longe de tudo e de todos, também ajudou a manter o foco e a disciplina. Acho que esses três anos de faculdade foram os mais duros e intensos em termos de estudo, autodescoberta, aperfeiçoamento, felicidade, crescimento, frustração, saudade da família, crises existenciais semanais, mas tive como recompensa final toda a experiência adquirida.

Com quais artistas tem trabalhado?
Tenho trabalhado com diversos artistas, e me sinto privilegiado de poder tocar com vários dos meus ídolos na música. Gosto de fazer vários trabalhos e estilos diferentes, o que me permite estar sempre estudando e aprendendo coisas novas. Estou tocando vários shows com a pianista brasileira Eliane Elias, com a cantora portuguesa/cabo verdeana Carmen Souza, a baixista Amanda Ruzza e nos últimos meses fiz concertos com Chico Pinheiro, Paquito D'Rivera e Cláudio Roditi. Tenho também dois projetos: o Mauricio Zottarelli Group e o Mozik, com os quais toco regularmente em NY e também em turnês. o Grupo Mozik tem uma pequena turnê agora em julho nos EUA. Tenho trabalhado com notáveis artistas e importantes nomes do cenário musical atual, como Hiromi, Marc Johnson, Prasanna, Esperanza Spalding, Keiko Matsui, Richard Bona, Cláudio Roditi, Joe Locke, Geoffrey Keezer, Mike Pope, Ivan Lins, Chuck Loeb, Rosa Passos, Dom Salvador, Jovino Santos Neto, Nilson Matta, Toninho Horta, Filó Machado, Cidinho Teixeira group, Gustavo Assis Brasil, Marc Rossi Group, Hendrik Meurkens, Oriente Lopez entre outros. Além disso, trabalho com vários grupos e artistas na cidade de NYC onde, muitas vezes, sou chamado para cobrir outros bateristas, o que é sempre muito bacana de fazer, pelo desafio de aprender novas musicas/estilos, e às vezes com pouquíssimo tempo de preparação. 

Você tem planos para voltar ao Brasil?
Sempre que possível, gosto de vir ao Brasil para matar a saudade e visitar a família e os amigos. E sempre tento fazer alguma coisa, como shows, workshops, aulas particulares. No ano passado, realizei uma série de workshops no estado de São Paulo e em Blumenau (SC). Espero em breve poder trazer meus projetos para tocar por aqui!

Você poderia falar sobre a importância dos rudimentos?
Sim, é claro! Mas sempre pensando musicalmente! É fácil perdermos o foco musical quando estudamos os rudimentos e exercícios que trabalham a mecânica na bateria. Tantos bateristas que estão surgindo agora tem o domínio técnico dos rudimentos, mas quando chega a hora de aplicá-los musicalmente, não acontece nada. É muito importante estudá-los a fundo, mas, mais importante é sabermos usá-los de maneira criativa, musical e com bom gosto. Meus favoritos são o toque simples, duplo, paradiddles, drags e flams. Você pode fazer muita coisa usando somente esses 5 rudimentos básicos.
 
Estudar em pad ou bateria?
Acho legal estudar em ambos. Particularmente, não sou muito adepto ao pad. Prefiro um travesseiro duro ou, às vezes, o próprio assento do banquinho da bateria. Mas é fundamental estudarmos na bateria também, afinal, esse é o nosso instrumento.

Gostaria que deixasse algumas palavras para o pessoal de Pitangui e região, como fechamento da entrevista. 
Desejo toda a sorte e felicidade aos amigos músicos e amantes da boa música, e que possamos continuar fazendo o que amamos: tocar nossos instrumentos, criar, interagir, e trazer união, paz e harmonia entre as pessoas com nossa música. E que o amor e o apoio incondicionais à arte nunca morram. Aos novos adeptos, muita força nos estudos e continuem focados no que realmente importa. A música sempre vai nos mostrando o caminho a seguir. Obrigado a todos pela leitura e pelo apoio. Um especial agradecimento ao amigo Carlos Wagner Nunes e ao INDEPENDENTE pela oportunidade. Até uma próxima vez!

(*) Carlos Wagner Nunes é músico e professor pitanguiense. Formado em Letras pelo Inesp, pós-graduado em Ensino de Língua Inglesa pela UFMG, em Medicina Chinesa pela Unisaúde, pela Escola de Música OMB-Vivaz. Cursa Homeopatia na UFV. Endossante Soultone Cymbals

5 comentários:

  1. Muito boa a entrevista! Parabéns!

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  2. Gostei muito da entrevista. O Mauricio mostrou ser realmente aquele que eu conheço desde que nasceu. Simples e único e para quem já viu ou ouviu tocar é um dos melhores bateristas na face da Terra. Quem conhece música e os segredos da bateria sabe muito bem disso.Parabéns pela entrevista.

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  3. Parabens Mauricio,muito boa a entrevista,fonte de inspiraçao sempre...grande abraço Ladson

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  4. Parabéns Carlos Wagner Nunes, pela iniciativa e belo trabalho de intrevista. E ao Maurício Zottarelli pelas palavras inspiradoras!

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  5. Quero parabenizar ao Carlos Wagner por começar tão bem esse trabalho de entrevista c músicos.Mais um mestre na bateria!!! Vou estar aqui sempre atenta c todas as entrevistas. Abraço!!

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