16 de julho de 2013

A Copa do Mundo de Pitangui

Marcelo Freitas*

Exatamente dentro de dois anos, Pitangui chegará aos seus 300 anos de fundação. Dois anos podem parecer muito tempo. Depende de onde se quer chegar. Entendo que uma comemoração de 300 anos é um privilégio do qual, ainda hoje, pouquíssimos municípios mineiros podem se dar ao luxo. Para ser mais preciso, além de Pitangui, apenas outros seis dos 853 que formam o Estado. Portanto, não se trata de um evento pouco significativo. Guardadas as devidas proporções, uma comemoração como essa é como se fosse uma olimpíada ou uma copa do mundo. Se o evento for bem sucedido, pode dar ao país anfitrião uma visibilidade de que antes não dispunha.
 
Pitangui, no rol das cidades históricas mineiras, ficou meio esquecida. O município não dispõe do prestígio que têm Ouro Preto, Mariana ou Diamantina, apenas para citar algumas dos mais conhecidos. A lenta destruição de seu patrimônio histórico do período colonial, ocorrida ao longo do século passado, retirou uma parte do brilho que tinha. Isso é inegável. Por outro lado, também é inegável que a cidade passa por um processo de redescobrimento de seu valor enquanto cidade histórica.

O ponto de partida desse processo foi o tombamento de seu centro histórico, ocorrido em 2008. A despeito das inúmeras críticas que recebeu na época, um fato não se pode negar. Os imóveis tombados que são de particulares, estão, com raras exceções, em estado muito bom de conservação. O mesmo se pode dizer dos bens de uso coletivo, como a Capela de São Francisco e o Museu – apenas para citar alguns – que estão em fase bem adiantada de restauração. Em resumo, Pitangui está, a meu ver, conseguindo dar a volta por cima.

Por isso, a comemoração dos 300 anos tem um significado especial. Mais do que um momento para se festejar, o tricentenário devem ser entendido como um evento que, se bem conduzido, pode vir a dar a Pitangui aquilo que os países que organizam copas do mundo ou olimpíadas também almejam: visibilidade e reconhecimento.

Porém, um evento à altura do que representa a cidade carece muito mais do que de boas intenções ou do simples desejo de realizá-lo. Requer planejamento, recursos e, mais importante do que tudo isso: união e humildade. Humildade para entender que a comemoração dos 300 anos é um evento da cidade como um todo e não de parte dela. Não é um evento somente da prefeitura, dos vereadores, dos empresários, das ONGs, ou apenas dos intelectuais. É um evento de todos estes setores, só que unidos em torno de um objetivo comum. A humildade é condição para a união.

Vejamos o meu caso, por exemplo. Estou desenvolvendo o projeto de lançar, até junho de 2015, mais 11 livros de bolso da coleção "Pitangui 300 anos" (detalhes em comunicacaodefato.com.br). Já lancei o primeiro. Outros estão em fase de produção. Entendo que a coleção dos livros faz parte de um projeto maior, que é a comemoração dos 300 anos de Pitangui. É assim que eu o vejo. Essa seria a minha contribuição para este momento, da mesma forma que outras propostas, provenientes de outros segmentos da sociedade pitanguiense e do poder público, também virão. O importante é que se crie uma articulação de projetos para que não ocorra uma superposição de ações. Toda superposição, é bom se que se lembre, significa perda de tempo e de dinheiro. E, no final das contas, quem sai perdendo é a cidade.

O que eu defendo é que se forme uma comissão, da qual fariam parte todos os segmentos representativos da sociedade pitanguiense, que ficaria responsável por conduzir as comemorações dos 300 anos, distribuindo funções e cobrando resultados. Caberia a essa comissão receber sugestões e dar a elas um encaminhamento profissional. Digo isso porque é importante não ter ilusões. Uma comemoração do porte que a cidade merece exige planejamento e, mais do que isso, recursos. Apenas boas intenções não bastam.

Vamos a alguns exemplos: o tombamento do centro histórico foi importante porque impediu que novos casarões fossem ao chão. Porém, entendo que é preciso avançar no sentido de se refinar o aspecto visual da área tombada. Para isso, duas medidas são, a meu ver, de fundamental importância: implantação da rede subterrânea de distribuição de energia elétrica e a retirada da cobertura asfáltica, voltando com os paralelepípedos. É preciso, também, que todos os bens que compõem seu patrimônio histórico estejam, integralmente, restaurados e estejam disponíveis para visitação.

Outro exemplo a merecer atenção é o do turismo. Pitangui tem o que mostrar enquanto roteiro turístico. Tem o patrimônio arquitetônico, que, é bom que se frise, não é composto apenas pelos imóveis do período colonial. Há também um rico acervo do início do século passado, com as casas em estilo eclético que fazem parte do conjunto tombado da praça Governador Benedito Valadares. Há também o patrimônio ambiental, formado pela Mata da Pedreira e pela Mata do Céu, que também poderia merecer um tratamento como roteiros turísticos. Do ponto de vista da gastronomia, há em Pitangui um movimento nascente, que também deveria ser potencializado para as comemorações dos 300 anos. Em uma modesta avaliação de quem não é do ramo, Pitangui reúne todas as condições para conseguir realizar uma combinação do turismo histórico, com a gastronomia, a cultura e turismo ambiental. Para que isso ocorra, é preciso que entrem em cena os profissionais do ramo. Insisto: não é tarefa para amadores.

Por fim, uma última reflexão: Pitangui precisa deixar de lado o acanhamento e se mostrar para o mundo, utilizando todas as ferramentas possíveis: jornais, rádios, redes sociais, etc. Porém, para que isso ocorra, é preciso que se tenha um projeto estratégico de comunicação para os 300 anos, no qual todas as estratégias e ferramentas estariam previstas. É preciso que se crie um marca dos 300 anos, da mesma forma que se tem uma marca da Copa de 2014 ou das Olimpíadas de 2016. E isso não é trabalho para amadores. É para profissionais. Tal como no turismo: vai muito além das boas intenções.

Em suma, entendo que estamos diante de um cenário no qual várias oportunidades estão se abrindo. Cabe a nós aproveitá-las. Mas, é preciso estar atento ao momento. Dois anos não é muito tempo. Pelo contrário: é um tempo muito curto para que se possa ter uma comemoração à altura do que a cidade merece. Dos atuais moradores de Pitangui, pode-se contar nos dedos de uma só mão, aqueles que presenciaram as comemorações dos 200 anos, em 1915. Os que irão comemorar os 400 anos ainda não nasceram. Por isso, trata-se de um evento muito especial. Temos que dar o sinal de partida antes que essa janela se feche.

 
Artigo originalmente publicado na edição impressa nº 383, de julho de 2013.

(*) Marcelo Freitas é jornalista com mestrado em Gestão de Cidades pela PUC Minas. É autor do livro "A construção do tombamento", que conta a história do tombamento do centro histórico de Pitangui.

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